Carolina Paola Cots

Pesquisa: Recursos interacionais multimodais mobilizados por uma criança com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) em brincadeiras familiares.

Resumo: Esta pesquisa dedicou-se à sistematização, descrição e análise do uso de recursos interacionais multimodais mobilizados por uma criança com diagnóstico de Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), de pseudônimo Luiza, durante situações cotidianas espontâneas em que emergiram brincadeiras familiares. Recursos interacionais multimodais são aqueles de natureza semiótica distintas (GOODWIN, 2010), verbal, corporal e material, mobilizados pelos participantes durante a construção de suas práticas linguístico-interativas. Nosso interesse surgiu da própria descrição do que seria o TEA, definido como uma condição que afeta o neurodesenvolvimento caracterizado, dentre outras coisas, pela dificuldade na comunicação e interação social e pelo comportamento e interesses restritos e repetitivos (LAI, LOMBARDO e BARON-COHEN, 2014). Fundamentamos nossa investigação em uma perspectiva sociointeracional de estudo da linguagem no TEA (OCHS e SALOMON, 2010; STERPONI, KIRBY e SHANKEY, 2014; STERPONI e KIRBY, 2015), que vem mostrando como muitas características descritivas desse transtorno encontradas na literatura, como os déficits pragmáticos, podem conter uma função quando interpretadas pelo interlocutor como um recurso interacional. Estudiosos dessa perspectiva afirmam a importância do corpo e da forma como este torna-se potente em interações de sujeitos com TEA e ainda destacam a importância do interlocutor e de fatores sociointeracionais para estes sujeitos poderem engajar-se satisfatoriamente. Em termos metodológicos-analíticos, baseamo-nos no campo dos estudos interacionais de perspectiva multimodal (MONDADA, 2012, 2014; STREECK, GOODWIN e LEBARON, 2011; CRUZ, 2017), o qual nos forneceu ferramentas para visualizarmos, tratarmos e analisarmos os dados. Recorremos ainda ao software ELAN e à notação de transcrição multimodal (MONDADA, 2012/2014). Evidenciamos assim a pertinência da aplicação dos pressupostos linguístico-interacionais para a compreensão e, principalmente, para descrição da organização e estruturação das interações espontâneas envolvendo crianças com TEA. Para a análise, selecionamos 5 (cinco) excertos do corpus CELA. Durante essas situações, voltamos nossa atenção para um conjunto de ações e relações interacionais que se estabeleceram entre os participantes ali presentes para que a brincadeira acontesse. Esta investigação nos permitiu colaborar na identificação daqueles elementos interacionais que revelam ou indicam algo sobre a sociabilidade autista (OCHS e SOLOMON, 2010), ou seja, sobre as habilidades ou limitações desses sujeitos para se engajar em uma interação e sobre as condições sociointeracionais que favorecem a coordenação de sociabilidades (OCHS e SOLOMON, 2010). Nesta pesquisa mostramos como as análises embasadas em uma perspectiva sociointeracional multimodal viabilizou a vizualização das habilidades de Luiza. Por exemplo, vimos: como Luiza participou da interação mesmo mediante as limitações linguístico-verbais, valendo-se de sequências de ações organizadas multimodalmente (corporal, verbal e material); como essas interações se construiram em um estado de domínio (OCHS e SOLOMON, 2010), a partir tanto de estruturas interacionais normativas quanto alternativas; e como Luiza engajou-se em interações tanto iniciando como respondendo a propostas de brincadeiras e mantendo-se nessas atividades lúdicas até o fechamento ou troca de atividade.

 

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